sexta-feira, 22 de maio de 2020

Juros, Câmbio e Bolsa de valores




Começo esse post com uma frase proferida por um renomado gestor do mercado brasileiro: “estou no mercado financeiro há 35 anos e nunca vi uma crise global tão profunda e rápida como essa”.

Diferentemente dos posts habituais, escrevi o texto um pouco mais longo para tentar explicar a atual correlação entre os ativos citados no título.

Começo por uma questão básica: por que no meio de uma crise tão profunda e sem precedentes, as bolsas de valores mundo afora não param de subir desde a forte queda em março?

Por exemplo, o S&P 500 está a apenas 15% do seu topo histórico, ocorrido antes da pandemia. Vários bons analistas afirmam que mesmo diante dessa diferença, em termos relativos, a pontuação de hoje é mais alta do que antes, pela forte deterioração dos números das empresas listadas (lucros, margens, etc.).

O IBOV subiu mais de 30% desde o fundo de março, porém precisaria subir mais 45% para retomar a sua máxima atingida em janeiro de 2020. Em dólares a bolsa brasileira perdeu mais de 50% do seu valor, em virtude da forte depreciação do real. Assim, fica bem claro que o desempenho do IBOV está muito abaixo das bolsas americanas.

Vamos entender o desempenho das bolsas globais de uma maneira simplificada:

·         Desde março deste ano os principais bancos centrais dos países desenvolvidos zeraram os juros básicos e injetaram trilhões de dólares na economia.

·         Os juros zerados e o excesso de liquidez naturalmente inflaram os preços dos ativos, especialmente o mercado de ações.

·         Todavia, acredita-se que em algum momento no futuro, não sabemos quando, o FED (banco central americano) vai reduzir suas interferências no mercado financeiro. Daí, a dura realidade chegará aos ativos. O mesmo gestor, citado no começo, disse o seguinte: “o FED pode muito, mas não pode tudo”.

·         A alta do S&P pós-pandemia foi muito concentrada nas grandes empresas de tecnologia. A última vez que tal concentração ocorreu foi na pré-crise das empresas de tecnologia no ano de 2.000.

·         É fato e notório que teremos uma forte queda no PIB neste ano em praticamente todos os países. O desemprego está subindo e os lucros das empresas despencarão. Por pouco ou muito tempo? E a retomada da economia, será rápida ou lenta? Ninguém sabe as respostas.

·         Por último, em relação ao cenário global, teremos ou não uma segunda onda de contaminação? Teremos ou não um medicamento eficaz no curto prazo? A vacina estará disponível neste ano ou somente em 2021?

·         Fica muito claro que as incertezas sobre o futuro ainda são enormes.  

E o Brasil, como está nisso tudo?

·         A condução do controle da pandemia no Brasil foi muito ruim, seja na esfera municipal, estadual ou federal, uma lástima completa por todos os cantos. Virou uma briga política entre nossos governantes. 

·         Estamos no “olho do furacão” e ainda não temos planos efetivos de condução e controle da pandemia, e muito menos sabemos qual será o horizonte para sairmos dela.

·         Para piorar adentramos a uma grave crise política em Brasília que beira a ingovernabilidade. E mais. A crise sanitária paralisou as reformas que estavam no Congresso e gerou uma série de despesas “não recorrentes” (assim espero), que devem superar a economia estimada nos próximos 10 anos com a reforma da previdência aprovada em 2019 – mais de 800 bilhões de reais.

·         Que fique bem claro, sou a favor das medidas econômicas tomadas pelo Ministro da Economia para proteger os mais afetados pela crise, especialmente os mais vulneráveis. E também da ajuda aos Estados e Municípios, desde que haja contrapartidas, especialmente que os salários dos servidores públicos sejam congelados nos próximos dois anos. Todos precisam contribuir.

·         O que não devemos aceitar é a mudança permanente da agenda liberal, que teve início em maio de 2016 no governo Temer e que se manteve no atual governo.

·         Com a forte queda da atividade econômica, em virtude das medidas de isolamento social e do lockdown, a receita do Governo Federal cairá fortemente nesse ano. Assim, a relação dívida / PIB poderá atingir 100%, o que é muito para um país em desenvolvimento como o Brasil.

·         O Banco Central do Brasil “empolgado” com a redução de juros mundo afora e a inflação controlada por aqui, reduziu fortemente a Selic, atualmente em 3.0% ao ano. Além disso reduziu os compulsórios bancários para aumentar o crédito para as empresas e para a população em geral.

·         Porém, o “tiro saiu pela culatra”. Pegar empréstimo no Brasil continua muito difícil e os juros continuam elevadíssimos (em média 12% ao ano). O dinheiro continua “represado” nos bancos comerciais.

·         Pior. Os efeitos colaterais da queda da Selic surgiram: aumento desenfreado do dólar e o aumento do spread (diferença) entre os juros curtos (determinado pelo Governo) e o juros longos (determinado pelo Mercado).

·         Definitivamente, o Banco Central não tem controle sobre os juros futuros. E nunca terá. E por que isso? Você emprestaria dinheiro a longo prazo e com juros reduzidos para alguém que está “explodindo” sua dívida?

·         Com o câmbio desvalorizado e os juros reduzidos, o dinheiro local, por falta de opção, migrou naturalmente para a renda variável, inflando a cotação dos ativos. Relembrando, os gringos saíram da bolsa há muito tempo.

·         Faça uma conta rápida. Se em janeiro de 2020 você tinha o equivalente a 100 mil dólares em reais, atualmente você tem 30% a menos em dólares. Faça a mesma conta suas ações e verá que a situação é pior. Se você tinha 1.000 ações da Petrobrás a 30 reais (cerca de 7 dólares), preço pré-crise, hoje você tem as mesmas ações a 18 reais cada uma (3,2 dólares por ação – queda superior a 50%).

·         A bolsa brasileira continua subindo, mesmo no meio da crise, porém estamos cada vez mais pobres em virtude da disparada do dólar: nossos ativos são cotados em reais.

·         Quando será que essa “engenhoca” toda vai parar de funcionar? Bom, um palpite: o Banco Central até poderá abaixar mais ainda a Selic na próxima reunião, mas possivelmente em breve, talvez no segundo semestre ou em 2021, ele será obrigado a subir os juros básicos, e desta vez de maneira intensa, na tentativa de frear o câmbio, controlar a inflação (ela voltará) e reduzir o diferencial de juros.

·         Se os juros voltarem a subir fortemente, e como já dito, isso deverá ocorrer em algum momento nos próximos meses, o dólar cederá, o dinheiro migrará para a renda fixa (maior taxa de juros) e a bolsa deverá ser afetada (de novo).

·         Por último, um detalhe relevante: o Brasil pode estar entrando no que os economistas chamam de “dominância fiscal”. Grosso modo, isso significa que a queda da taxa de juros (Selic) não será balizada pela inflação, mas sim pela situação fiscal do Governo Federal, que poderá estar caótica ao final da crise.

Posto isso, o que fazer com seus investimentos no curto prazo?

1.      Mantenha seus seguros em carteira: ouro e dólar americano. Esses ativos já subiram muito, mas devem continuar assim por algum tempo.

2.      Mantenha um bom caixa em juros pós-fixados. Ao final da crise (e durante), o dinheiro líquido será muito importante: “cash is king”. Oportunidades à vista.

3.      No momento evite os títulos prefixados e tenha parcimônia com os títulos atrelados à inflação. O motivo? Juros futuros em alta, preço dos títulos em queda. Simples assim.

4.      Mantenha seu portfólio em bolsa, mas sem exagerar na dose. Se antes da crise você tinha 30% da carteira em renda variável, agora mantenha 20%.

5.      Seja muito seletivo na escolha de suas ações. Busque empresas sólidas e preparadas para a crise. Infelizmente muitas empresas ficarão pelo caminho.

6.      Fuja das empresas muito endividadas e problemáticas.

7.      Se puder mantenha alguma exposição ao mercado acionário americano. Ele se recuperará de forma definitiva muito antes do nosso. Isso é quase uma unanimidade entre os gestores. Porém, seja seletivo nos ativos e não se esqueça que uma segunda onda de correção nas bolsas mundiais poderá ocorrer antes da retomada.

8.      O cenário atual exige cautela, mas não podemos perder as oportunidades.

9.      Prepare-se para todos os caminhos possíveis.

10.  A crise vai acabar. Isso é certo. Mas, você precisa estar vivo!

Bons investimentos.




domingo, 3 de maio de 2020

Nuvens negras pela frente – Be aware!




Depois de um março caótico nas bolsas mundiais, o mês de abril foi supreendentemente positivo – bem acima das minhas expectativas.

Seguindo o comportamento dos índices americanos, o IBOV subiu fortemente no mês de abril. Alta de mais de 10%. Não fosse o dia muito ruim da última quinta-feira, queda de 4%, o desempenho poderia ter sido ainda melhor.

Antes de comentar os dados gráficos e sugerir os próximos passos do IBOV, vou relembrar os atuais “fundamentos” dos ativos globais.

A queda vertiginosa dos ativos no mês de março foi provocada pela rápida disseminação da Covid-19 (inicialmente subestimada pelo mundo ocidental), pelas medidas tomadas pelos governos para frear a pandemia (isolamento social e lockdown) e pela grave crise do petróleo.

Após a enxurrada de estímulos fiscais mundo afora, os Bancos Centrais aumentaram ainda mais a liquidez nas economias globais. E como sempre o dinheiro em excesso infla o valor dos ativos de renda variável. Outro efeito colateral poderia ser a inflação, mas ela provavelmente não ocorrerá no curto prazo (retração da economia, desemprego e avanços tecnológicos, dentre outros fatores).

Por outro lado, o desempenho das bolsas em abril foi muito além de qualquer previsão otimista. Acredito que essas fortes altas não são condizentes com o cenário atual da economia mundial. Talvez a partir de maio voltaremos a realidade.

A seguir listo alguns aspectos que vão na contramão das altas recentes:

O efeito do lockdown na economia global ainda não chegou aos números da economia real. Mas a conta vai chegar!

A divulgação dos resultados trimestrais das empresas nas próximas semanas pode frear o otimismo global (alguns resultados já publicados mostram essa direção). E mais, o resultado negativo mais dramático não será no primeiro trimestre e, sim, no segundo.

Ocorrerá um forte recuo no PIB mundial. Isso é inexorável. Ainda não sabemos o tamanho do rombo e nem se o efeito será somente no curtíssimo prazo. Até aqui, me parece que o mercado está “apostando” nessa hipótese.

Por enquanto, o aumento do desemprego é o dado mais palpável da crise, basta ver os números americanos. 

A forte alta do S&P 500 desde o fundo de março foi muito concentrada nas ações das grandes empresas americanas de tecnologia. E historicamente isso não é boa coisa. É só rememorar a crise das empresas de tecnologia em 2000.

Por aqui, se não bastasse a crise do coronavírus, o ambiente político foi extremante deteriorado pelas inúmeras gafes dos nossos governantes em Brasília. E mais. A confusão me parece estar apenas no começo. É inacreditável o poder de lambança dos nossos mandatários. É um terror sem fim.

Os esforços da equipe econômica do Governo Federal em combater à crise (e na direção correta em minha opinião) vão agravar o quadro fiscal no Brasil, que já era ruim. 

Passemos aos dados gráficos:

No último post publicado no começo de abril citei três possíveis caminhos para o IBOV. O caminho percorrido pelo índice foi a segunda opção elencada por mim. Na última quinta-feira o IBOV fechou em 80 mil pontos, após ter atingido 83.500 pontos na véspera.

Continuaremos em alta ou entraremos numa segunda onda de recuo nos preços?

Vejam alguns detalhes: 

O gráfico de curto prazo (diário) mostra uma tendência de alta com topos e fundos ascendentes. Teoricamente, ainda existe um bom espaço para novas máximas.

Todavia, acho que a bolsa brasileira está perdendo força. A forte queda do último dia abril pode ser o gatilho para mais recuos.

Os preços estão trabalhando dentro de uma figura gráfica chamada de cunha ascendente – uma figura de baixa. Os preços subiram, mas de “maneira contida”. A perda da faixa dos 75 a 77 mil pontos poderá derrubar o IBOV. Daí poderíamos voltar a testar os fundos prévios em 71, 67 e 61 mil pontos.



Por outro lado, um eventual rompimento dos 84 mil pontos poderá desencadear novas altas do IBOV. Graficamente existe “caminho livre” até os 100 mil pontos.

E o mais importante, continuaremos grudados no desempenho das bolsas americanas, e talvez lá, o rali de alta esteja perdendo fôlego. Será?

Por último uma curiosidade: Charles Dow, o maior exponente da análise técnica no século passado, cita que um Bear Market tem três movimentos claros: uma forte queda inicial, seguida de uma significativa alta (menor que o primeiro) e, por último, temos um novo movimento de queda, que pode parar no fundo da primeira queda ou renovar o piso. Talvez estamos próximos dessa terceira onda. 

Posto tudo isto, é fato que estou pessimista no curto prazo. Os efeitos da pandemia ainda são muito incertos e nebulosos. Apenas o desenvolvimento de uma vacina poderia trazer o alívio definitivo ao mundo. O otimismo exagerado do mercado me parece precipitado.

O que fazer? Minhas sugestões:

Mantenha um bom caixa (dinheiro com liquidez imediata e sem risco). Boas oportunidades poderão surgir em breve.

Não exagere nas posições acionárias. Também não recomendo zerar suas posições.

Faça realizações parciais de lucros. Alguns ativos subiram muito em abril.

Evite comprar empresas problemáticas e endividadas que cairão muito. As melhores empresas sairão mais fortes da crise.

Mantenha os ativos de proteção em carteira. Apesar da forte alta do dólar americano e do ouro, ainda não há sinais de reversão nesses ativos. E mais, se a crise política no Brasil piorar, a moeda americana poderá continuar subindo fortemente.

No atual cenário tenha algum cuidado com os títulos de renda fixa. Os juros futuros podem “explodir” e os preços dos títulos despencarem, se a crise política agravar.

Mantenha um portfólio diversificado e mais cauteloso. 

Não exagere no otimismo para uma eventual recuperação rápida da economia. Este caminho é possível, mas não me parece o mais provável, pelo menos por enquanto.

A ideia é ficar “posicionado” para enfrentar todos os cenários possíveis. No momento, as incertezas são preponderantes e ninguém sabe sobre o futuro. 

Resumindo, a bolsa até pode continuar subindo, mas em minha opinião, o mais provável é um recuo nos preços a qualquer momento a partir de maio. Último detalhe: enquanto a B3 ficou fechada na última sexta-feira, em virtude do feriado, as bolsas americanas caíram fortemente (cerca de 3%). E mais. Os futuros das bolsas americanas abriram em queda neste domingo. Pode ser o prenúncio de mais um “Sell in may and go away”. Be aware!

Bons investimentos.

MJR

As opiniões postadas no blog são apenas posições do autor sobre o tema, e não constituem em si, recomendações de compra ou venda de ativos. E mais. O investimento no mercado de renda variável pode gerar prejuízos.




sábado, 4 de abril de 2020

IBOV a 70 mil pontos: barato ou caro? Faremos novo fundo?




Em cenários de dúvidas extremas em relação ao futuro próximo, precificar um ativo é uma tarefa quase impossível.

Para o longo prazo, o IBOV cotado a 70 mil pontos é muito barato. Para o curto prazo, talvez seja caro.

Após a brutal turbulência dos preços no começo de março, os sinais gráficos estão um pouco mais confiáveis.

Graficamente, temos três caminhos para os próximos dias:



1)      Perder o fundo do último pregão (68 mil pontos) e buscar os 61 mil pontos (fundo de março), e quem sabe fazer novo fundo entre 50 e 60 mil pontos.

2)      Voltar a subir na semana que vem e romper o topo intermediário de março (79 mil pontos). Se isso ocorrer, teremos um “pivô de alta” no gráfico diário, o que pode levar o índice para 85 a 90 mil pontos.

3)      Ficar “travado” entre 68 e 79 mil pontos. 

Sinceridade, qualquer hipótese é factível, mas acho que o mais provável é a primeira: voltaremos a testar o fundo. “Antes de melhorar, o cenário vai piorar”, como dizem por aí. A segunda é uma boa hipótese, mas não é condizente com as incertezas atuais. Em minha opinião a terceira é a menos provável.

O que fazer? No curto prazo o melhor é concentrar nas operações de Day Trading seguindo os caminhos acima citados (siga o fluxo e a tendência de curtíssimo prazo). Para o investidor de longo prazo, aproveite as quedas e compre bons ativos, aos poucos, mas sem perder a liquidez. A situação pode piorar!

E o mais importante. Continuaremos "grudados" no comportamento das bolsas americanas, e lá, a situação gráfica é muito parecida com a nossa. Atualmente as mazelas políticas tupiniquins têm pouca importância no movimento dos preços.

Por outro lado, acho muito improvável que o IBOV perca os 50 mil pontos. Assim, temos espaço para cair “apenas” 20%. O IBOV cotado a 10 mil dólares atrairá muitos compradores e a queda será contida. Essa é a minha expectativa.

E o dólar? No dia de ontem a moeda americana fechou a 5,32, o maior patamar da história recente. E pior, ainda não existe sinal de reversão. É quase consenso entre os analistas que o dólar está muito sobrevalorizado em relação ao real, mas talvez, antes de cair, o dólar alcance novas máximas, o que corrobora com a minha expectativa para a bolsa. Não é hora de desfazer o hedge em moeda americana.

Quando o cenário ficar mais claro e previsível sobre a evolução da pandemia e seus efeitos na saúde e na economia, o dólar poderá despencar e voltar aos níveis pré-crise, entre 4,0 e 4,50 reais. Dentre outros fatores fundamentalistas que corroboram com isso, cito apenas um: na atual crise sanitária-econômica, as exportações brasileiras de commodities continuarão (entrada de dólares) e as importações cairão (menor saída de dólares), favorecendo o real.

E não se esqueça de proteger seu portfólio com ouro. A tendência de alta continuará. Compre aos poucos, especialmente nos dias de recuo. Juros em queda, metal em alta. Isso é quase infalível. 

Bons investimentos e muita calma!

MJR

As opiniões postadas no blog são apenas posições do autor sobre o tema, e não constituem em si, recomendações de compra ou venda de ativos. E mais. O investimento no mercado de renda variável pode gerar prejuízos.



domingo, 22 de março de 2020

IBOV – Até quando o caos seguirá?




Em momentos de extremo pânico como o atual, qualquer análise dos ativos financeiros é no mínimo duvidosa. Por um motivo simples: a incerteza do futuro próximo.

A crise é sanitária, mas o estrago maior será na economia. Sem poesia. Realidade pura. Me desculpem a sinceridade e o pragmatismo nesta hora tão complicada para todos nós.

Não sabemos até quando a pandemia vai perdurar. Não sabemos até quando a quarentena permanecerá. E também não sabemos quantificar o efeito negativo sobre a economia e as empresas.

Quase tudo ainda muito incerto no curto prazo. Um cenário obscuro e sombrio.

O que mais gera volatilidade e negativismo no mercado financeiro é justamente a incerteza. A falta de clareza derruba o preço dos diversos ativos.

Tanto a análise fundamentalista como a análise técnica ficam extremamente prejudicadas no cenário atual.

Por outro lado, sabemos que o mundo não acabará em 2020. O pânico no mercado financeiro passará. O pânico na sociedade também. É uma questão de tempo. Só não sabemos contabilizar o período exato de paralisia e o dano sobre a atividade econômica.

Então o que fazer com sua carteira de investimento?

Seguem algumas recomendações pessoais, seguindo o movimento de alguns grandes gestores:

1.      Mantenha parte das suas reservas financeiras em ativos líquidos e pós-fixados: Fundos DI e Tesouro Selic. Eles rendem pouco, mas são seguros e ficam fora do sell-off.

2.      Não desfaça de suas ações e das cotas dos fundos imobiliários aos preços atuais. O momento de vender já passou.

3.      Não é hora de sair comprando “tudo”. O que está barato hoje pode ficar ainda mais barato nos próximos dias.

4.      Compre aos poucos e não queime totalmente seu caixa.

5.      Dê preferência as empresas sólidas, lucrativas e sem dívidas. Elas estão mais preparadas para enfrentar a crise.

6.      As Small Caps sofreram muito em março e provavelmente devem continuar assim nas próximas semanas. A baixa liquidez aumenta a volatilidade e acelera o processo de queda dos preços. Só aumente sua aposição nestes ativos se seu horizonte for muito longo (anos), e se você tem convicção de que a empresa sobreviverá ao caos atual.

7.      O dólar americano subiu muito e por enquanto não mostra sinais de reversão. Mantenha sua parcela de proteção. Quando o cenário ficar mais claro é provável que a moeda americana perderá força frente ao real.

8.      O ouro ficou estável nas últimas semanas, paradoxalmente. Analistas acreditam que muitos fundos precisaram realizar lucros para gerar caixa, o que impediu uma escalada nos preços. Uma coisa é quase certa, nos níveis atuais de juros mundo afora, o ouro deverá ter uma boa performance nos próximos meses. A história mostra isso: “juros baixos, metal em alta”.

9.      Títulos públicos: apesar da queda da Selic na semana passada (3,75%), os juros futuros dispararam (abertura da curva de juros). Apesar das taxas muito atrativas, o cenário ainda é muito incerto. Se optar por comprá-los, compre aos poucos. Relembrando que os vencimentos mais longos são os mais sensíveis à volatilidade.

Por último, uma mensagem positiva. Momentos de pânico e crise geram grandes oportunidades no mercado financeiro. Tenha paciência, foco e controle emocional. Seja forte e monte seu portfólio com prudência e frieza.

Primeiro a sobrevivência, mas sem esquecer do futuro. No longo prazo você vencerá: os fortes e pacientes sobreviverão.

Bons investimentos.

MJR


As opiniões postadas no blog são apenas posições do autor sobre o tema, e não constituem em si, recomendações de compra ou venda de ativos. E mais. O investimento no mercado de renda variável pode gerar prejuízos.





sexta-feira, 13 de março de 2020

Atualização IBOV – Curto prazo ainda muito incerto




No último post (01/03/2020) o IBOV estava cotado a 104 mil pontos. Escrevi naquele dia que o índice tinha feito um sinal de fundo no curto prazo e que deveria “repicar”. De fato, isso ocorreu e o IBOV subiu quase 5% em 2 dias. O recuo a seguir também era provável, testando novamente o fundo em 100 mil pontos. Daí para frente surgiu o imponderável.

Seguindo o forte recuo das bolsas mundiais, o IBOV perdeu 30% em apenas seis pregões. A maior queda do IBOV num curto espaço de tempo. Do topo em janeiro até o dia de ontem (12/03) a queda superou 40%. Definitivamente, ninguém previa tal magnitude de movimento. Foi um arraso no valor das ações.

Esqueçamos o passado e pensemos no futuro.

O prognóstico para o longo prazo continua o mesmo. Já comentei isso, mas repito, mesmo os grandes “bull markets” passam por correções agudas. Assim, não desfaça de suas ações.

A hora de vender já passou. O “timing” ideal ocorreu quando o IBOV estava cotado acima dos 115 mil pontos, quando recomendei realizações parciais no mês de janeiro.

Não é fácil ver a carteira de ações sangrando, mas não tome decisões precipitadas. Os fundamentos da economia brasileira continuam os mesmos.

Por outro lado, no curto prazo as incertezas aumentaram em progressão geométrica e a alta volatilidade permanecerá. A forte disseminação do coronavírus, a crise do petróleo e a paralisia da economia mundial devem afetar significativamente o crescimento global e o lucro das empresas.

O que fazer?

Se você tiver caixa aumente suas proteções em ouro e dólar. Se antes o indicado era 10%, talvez 20% seja um bom montante. Outros mecanismos de hegde mais sofisticados também podem ser usados pelos investidores mais experientes.

Aproveite as quedas abruptas para aumentar a posição em ações, mas sempre com muita parcimônia. Vários ativos estão baratos, mas podem ficar ainda mais. Compre aos poucos.

E o mais importante: invista apenas em boas empresas. Não compre empresas ruins só porque caíram muito. É uma tremenda fria.

Mantenha intacto seu fundo de reserva. A crise pode durar mais tempo do que o previsto.

Foque na diversificação da carteira. Não ouse concentrar seus ativos em supostas oportunidades de renda variável.

Com o pânico mundial, as taxas do Tesouro Direto ficaram mais atrativas. Mais uma vez, compre aos poucos. A situação pode piorar e as taxas ficarem ainda mais atrativas.

Duvide de quem sabe o que acontecerá no mercado nas próximas semanas. É uma missão impossível. Ninguém tem a menor ideia do ocorrerá no curto prazo.

Resumindo: a meta no curto prazo é sobreviver à tempestade. A atual crise é passageira, mas não sabemos quantificá-la em tempo. A situação pode piorar. Foque no longo prazo!

Bons investimentos e muita calma!

* O pânico é uma das principais causas de transferência de renda no mercado financeiro. 

MJR




domingo, 1 de março de 2020

Atualização extraordinária do IBOV – BOTTOM TAIL




Escrevo esse post para uma alerta importante aos leitores que acompanham o blog.

Após o forte movimento de queda visto no decorrer dos últimos dias nas bolsas mundiais, na última sexta-feira os mercados fizeram uma relevante movimentação.

Na sexta-feira, 28/02, os índices começaram em queda e depois mostraram uma reação surpreendente durante o restante do pregão.

O sinal gráfico é de um “bottom tail”, ou seja, o mercado sinalizou FUNDO no curto prazo. Esse sinal costuma ser muito fidedigno, porém não é 100%, como sempre em análise gráfica.

O sinal acima descrito ocorreu no Dow Jones, no S&P, no IBOV e nas Blue Chips brasileiras.





É provável que tenhamos uma boa recuperação nos próximos dias (mesmo com a abertura negativa do mercado futuro americano neste domingo à noite).

Isso não significa que haverá uma recuperação imediata do terreno perdido, mas uma pausa na sangria é quase certa.

No post anterior comentei que o IBOV possivelmente faria fundo acima dos 105 mil pontos. Ledo engano. O índice buscou o próximo suporte em 100 mil pontos e reagiu fortemente.

Assim, acredito que talvez seja um bom momento para aumentar as posições compradas, especialmente nas grandes empresas. Mas, faça aportes parciais.

Alerta: de uma maneira geral as Small Caps ainda não sinalizaram essa reação e quedas adicionais podem ocorrer.

A acentuada queda dos índices globais foi motivada pelo temor com o coronavírus. Apesar de não sabermos o futuro da doença, nos níveis atuais de preços, vários ativos estão convidativos: boa margem de segurança.

Por último, alguns comentários:

É muito comum que após o sinal de fundo, o ativo suba por alguns dias e depois volte a cair, retestando o fundo. Aqui poderemos ter uma nova oportunidade de compra.

Por outro lado, se perdemos o fundo de 100 mil pontos no IBOV (em fechamento), a continuidade da queda é certa.

E não se esqueça da significativa correlação atual entre o IBOV e os mercados americanos. Mesmo em estágios diferentes dos ciclos econômicos, a correlação está muito entrelaçada. Com certeza não saíremos ilesos numa eventual continuidade do recuo dos índices globais.

Bons investimentos.

MJR


As opiniões postadas no blog são apenas posições do autor sobre o tema, e não constituem em si, recomendações de compra ou venda de ativos. E mais. O investimento no mercado de renda variável pode gerar prejuízos.





terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O IBOV abrirá em forte queda nesta quarta-feira de cinzas!





Enquanto no Brasil os foliões (e investidores) curtem o Carnaval, lá fora as bolsas derreteram nos últimos dias. Um banho de sangue.

Após o recesso de quatro dias e meio, o IBOV voltará a negociar nesta quarta-feira às 13 horas. E deverá abrir em forte queda, acima dos 5%.

Veja os motivos:

Da última sexta-feira para cá, as bolsas mundo afora caíram fortemente. Nos últimos dois dias o S&P perdeu mais de 6%. É improvável uma forte recuperação até amanhã.

O principal motivo é preocupação com o COVID19 que chegou de vez à Europa, especialmente na Itália.

O Índice Titãs (BR20) que é negociado na bolsa dos EUA, e representa as 20 principais empresas do Brasil, caiu quase 8% nos últimos dois dias.



Assim, a forte queda do IBOV amanhã é praticamente certa. Não é preciso ter bola de cristal.

Com a provável queda de amanhã, perderemos o primeiro suporte em 110 mil pontos e ficaremos acima do principal suporte em 105 mil pontos.

O comportamento dos preços após a abertura e o desempenho no restante do pregão serão fundamentais para os próximos passos do IBOV.

Um paralelo: no “Joesley Day” o IBOV caiu mais de 8% num único dia e marcou o fundo de 2017 para cá. Posto isto, não é hora de desespero. Pelo contrário, possivelmente o dia de amanhã poderá ser uma grande oportunidade.

O desempenho de longo prazo das empresas brasileiras não será afetado pelo vírus. As grandes oportunidades chegam nos momentos de pânico.   

Graficamente, o IBOV deverá fazer fundo entre 105 e 110 mil pontos.

E mais. Com a queda do IBOV e o aumento do dólar, a correção do IBOV em dólares foi ainda maior, favorecendo o retorno dos gringos (sem a queda de amanhã, o IBOV cotado em dólares recuou mais de 12%; o BR20 perdeu mais de 20% desde o último topo).



Mais uma vez, no atual momento, dê preferência para as grandes empresas (Blue Chips) em detrimento das menores. Os motivos já foram elencados em posts anteriores.

Todavia, sugiro muita cautela pois a continuidade da queda do IBOV poderá ocorrer, se as bolsas americanas continuarem em forte recuo.

Bons investimentos.

MJR

As opiniões postadas no blog são apenas posições do autor sobre o tema, e não constituem em si, recomendações de compra ou venda de ativos. E mais. O investimento no mercado de renda variável pode gerar prejuízos.